"Ainda sabemos muito pouco sobre o funcionamento do cérebro"

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"Ainda sabemos muito pouco sobre o funcionamento do cérebro"

"Ainda sabemos muito pouco sobre o funcionamento do cérebro"

Joana Barroso estuda o comportamento do cérebro para perceber o que é que este órgão reage à dor. Uma investigação que pode trazer resultados promissores e mudar a vida de milhões de pessoas, como explicou a neurocientista num evento que decorreu na Porto Business School, em dezembro.

“Estuda-se a dor há dezenas de anos, mas só há 10 anos é que se consegue ver o cérebro a funcionar, portanto, nós ainda sabemos muito pouco sobre o funcionamento do cérebro em comparação com aquilo que sabemos da periferia do sistema nervoso (…) A readaptação do cérebro na dor crónica é algo que ainda não percebemos, que ainda não entendemos bem, e é aí que reside, provavelmente, a resposta da pessoa que vai desenvolver dor crónica e da pessoa que não vai. É aí que está a resposta, na forma como o cérebro se comporta, como o cérebro funciona”, explica a investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), num evento que decorreu em dezembro último, na Porto Business School.

 

Do que é que estamos a falar quando falamos em dor crónica? O cérebro "aprende" a sentir? Joana Barroso explica: “Quando não há um estímulo, a pessoa tem dor na mesma, não há um motivo para haver dor, não está a haver nada que esteja a provocar a dor, mas ela existe e existe porque o nosso cérebro que a fabrica, digamos assim. Isso é a dor crónica. E o que nós estamos a fazer (com a nossa investigação) é tentar perceber quando conseguimos tirar a dor às pessoas”.

 

A neurocientista concretiza: “Nós estudamos doentes com dor, com artrose no joelho. Antes de colocarem prótese analisamos como o cérebro funciona. 70% das pessoas ficam sem dor, mas há 30% que, independentemente de colocarem a prótese, têm sempre dor. Pensamos que são estes os doentes que têm aquilo que nós chamamos a sensibilização do cérebro, a sensibilização central. OU seja, por mais que nós alteremos a periferia, a dor já está sustentada pelo nosso sistema nervoso central”.  

 

Os resultados da investigação desenvolvida revela que a dor crónica pode depender muito mais de mecanismos de emoção e de recompensa. “Todos nós vivemos para ser recompensados digamos assim, todos nós precisamos da recompensa em tudo o que fazemos, e esse mecanismo de recompensa está dependente da dopamina, o mais importante neurotransmissor muito associado à adição. Portanto, pensa-se que será aí, numa diminuição do funcionamento deste circuito, que poderá estar associada uma diminuição da sensação de recompensa, ou seja, a pessoa precisa de um estímulo maior para ter uma igual recompensa. Mas ainda estamos muito no início”, adianta a neurocientista.

 

Um estudo feito em 2012 pela equipa do investigador Vania Apkarian, da Feinberg School of Medicine em Chicago, com o qual Joana Barroso tem colaborado, mostra que é possível prever quem é que vai sofrer dor depois de estar sujeito a um estímulo agudo. Porque é que isto acontece? “São pessoas que têm uma maior conectividade entre duas áreas específicas do cérebro, são áreas que funcionam com um neurotransmissor que é a dopamina, e que são áreas responsáveis pela recompensa. Portanto, pessoas com alteração do mecanismo de recompensa emocional têm maior probabilidade de ficar com dor. Ainda estamos a explorar se de facto isto acontece. Mas parece ser isto que explique”, sustenta a investigadora portuguesa.

 

O contributo da investigação que Joana tem levado a cabo vai permitir perceber o que acontece ao cérebro quando a pessoa deixa de sentir dor, “se de facto há uma reorganização do nosso cérebro ese ele volta a ser o que era"  ou se a pessoa mantém a sensação de dor, mesmo sem o estímulo. Isto permitirá conseguir identificar quem tem maior probabilidade de sentir dor crónica, definir bem qual é este circuito, quais são os neurotransmissores que estão envolvidos e se podemos atuar aqui, seja, farmacologicamente, seja atuando especificamente naquilo que está a ser alterado, ao nível das substâncias químicas naturais”, conclui Joana Barroso.

 

Joana Barroso, estuda o comportamento do cérebro na dor através de ressonância magnética, integrando os conceitos de emoção e perceção como pilares essenciais do seu trabalho.  Os estudos desenvolvidos na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, em colaboração com a Feinberg School of Medicine, em Chicago, já foram distinguidos em várias ocasiões -  Joana recebeu uma bolsa da Associação Portuguesa para o estudo da dor e mais recentemente conquistou a bolsa da Fundação Grünenthal para JOvens Investigadores, em 2017. que permitirá continuar a desenvolver o seu trabalho de investigação e a estudar os circuitos cerebrais de doentes com dor crónica e a forma como estes se relacionam com a dor. Em breve, Joana Barroso regressará a Chicago para analisar os dados que está a recolher em Portugal.