“As empresas portuguesas são competitivas”

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“As empresas portuguesas são competitivas”

“As empresas portuguesas são competitivas”

Adelino Costa Matos, presidente da ANJE – Associação Nacional de Jovens Empresários, defende que os “ jovens portugueses estão mais dinâmicos e mais interventivos na sociedade, nomeadamente na vertente do empreendedorismo” e afirma que os grandes desafios para o futuro do tecido empresarial nacional passam pela “competição e a globalização” e por “acreditarmos em nós e que temos todos as capacidades para o sucesso”.

Como é que caracterizaria o jovem empresário português?

 

[ACM] Nos últimos anos assistimos a alterações bastante profundas nas características do jovem empresário português. Diria que hoje estamos muito mais dinâmicos e destemidos. Cada vez mais sentimos que no passado existia muita aversão ao risco, ao erro e ao insucesso. E isso, muitas vezes, era a primeira base para as pessoas não criarem o seu próprio negócio e, efetivamente, não se tornarem empresários.

 

Acho que nos últimos dez anos houve uma alteração drástica e, hoje, os jovens portugueses estão mais dinâmicos e mais interventivos na sociedade, nomeadamente na vertente do empreendedorismo. E isso leva a que se tenha uma perspetiva mais positiva de negócio.

 

 

E muitos setores que passaram por dificuldades parecem ter-se reinventado, como os do têxtil ou do calçado. Hoje são casos de sucesso. Acha que os jovens empresários contribuíram para essa mudança?

 

[ACM] Sim. O facto de muitos jovens empresários terem assumido a liderança de áreas mais tradicionais ligadas à indústria – que não são tão sexys – levou a uma alteração enormíssima porque hoje olhamos para o crescimento da economia portuguesa e das exportações e vemos, efetivamente, que a metalomecânica, a cortiça, o calçado ou o têxtil tiveram uma preponderância muito grande. E acho que isto se deve, acima de tudo, porque soubemos reinventar a própria indústria.

 

Acabamos por conseguir alterar o paradigma de trabalharmos só com salários baixos, apostamos muito em tecnologia e estamos a traduzir isso em competitividade e produtividade. Alargamos os nossos horizontes porque o mercado interno não é suficiente. Há a Europa e o mundo. E esta forma de ver as coisas permitiu-nos chegar ao sucesso.

 

 

Fala de internacionalização. Acha que as estratégias adotadas em Portugal têm sido as adequadas?

 

[ACM] Julgo que sim. Basta olharmos para o crescimento das exportações nos últimos anos. Acho que esta aposta na internacionalização e na exportação têm sido um dos principais “batedores” que têm sustentado o nosso crescimento e a nossa balança comercial.

 

As opções que têm sido tomadas têm aberto horizontes para que possamos diversificar muito e estarmos presentes em outros mercados. E quando a Europa abrandou tivemos a capacidade para ir para mercados emergentes, criando equipas e infraestruturas e ter sucesso. Os resultados falam por si.

 

 

Entramos no campo da competitividade. Acha que o tecido empresarial português é competitivo e ainda se pode tornar mais competitivo?

 

[ACM] Acho que tem todas as condições para isso. A mudança de paradigma de que falei, nomeadamente na capacidade de gestão e de olhar para dentro na vertente industrial e também na interligação com a vertente tecnológica [que está a dar os primeiros passos em Portugal], permitem-nos ter a capacidade para dar respostas mais rápidas, o que depois tem repercussões a longo prazo.

 

Eu diria que estamos a iniciar esse processo que começou alguns anos a esta parte. Diria que temos muito trabalho pela frente para que possamos recolher os frutos, no futuro. Mas somos competitivos e acredito que continuaremos a ser.

 

 

E na sua opinião quais serão os setores mais competitivos no futuro?

 

[ACM] Eu acho que Portugal tem de apostar muito nos bens transacionáveis, ou seja, tudo o que é indústria mais tradicional onde temos a capacidade, o know-how e, acima de tudo, onde a introdução da tecnologia nos permite ultrapassar alguma falha que ainda tenhamos perante a concorrência, em particular a europeia. Esse será, sem dúvida, um dos principais focos. Somos muito fortes neste setor e devemos continuar a apostar nesta área.

 

Obviamente o turismo tem sido uma das alavancas do país. Temos feito uma excelente aposta nos últimos anos que, neste momento, está a dar os seus frutos. E pelo turismo há muito – e por arrasto – empresas de tecnologia que se transferem para Portugal. Além disso, somos o terceiro país mais pacífico do mundo, temos infraestruturas e há uma pró-atividade interna muito grande, que é muito interessante em termos de competitividade. 
 

Nesse sentido acho que os setores de maior aposta, no futuro, serão os da tecnologia, do turismo e os da indústria tradicional.

 

 

Mas para sermos competitivos também temos de captar investimento. Portugal não tem grande tradição no investimento de risco. Acha que isso está a mudar?

 

[ACM] Está, sem dúvida. A própria ANJE está a tentar, de alguma forma, a ajudar a que o próprio ecossistema esteja mais aberto a esta mentalidade e, lá está, tudo é um processo. No passado havia uma certa aversão ao investimento externo nas empresas. Havia uma mentalidade de posse por parte dos empresários [portugueses], no passado.

 

Hoje, com a globalização, está a acontecer o contrário porque estão a perceber que não é o mercado nacional que conta mas sim o internacional e que temos que estar rodeados de parceiros -  não só investidores financeiros mas também investidores estratégicos.

 

Esta interligação é fundamental para as empresas conseguirem dar o salto e para que o negócio cresça bastante. Isso e o papel do Governo e dos vários fundos existentes.

 

 

E quais os desafios de futuro do tecido empresarial português, em particular dos jovens empresários?

 

[ACM] Eu vejo como grandes desafios a globalização e a competição (à escala global, por inerência).

 

Acho fundamental que exista esta mentalidade de estarmos em Portugal mas que competimos globalmente. E o português muitas vezes ainda é visto como não estando, tecnologicamente, a um nível da Alemanha ou Estados Unidos. Nós temos de levantar a cabeça e dizer que, orgulhosamente, somos muito bons. Muitas vezes falta esta mentalidade de que conseguimos. E temos que competir e de crescer. Este mindset tem de ser introduzido. Está a melhorar bastante e está a levar a que as empresas portuguesas estejam em todo o mundo e com muito sucesso. O desafio é, sem dúvida, acreditarmos em nós e acreditar que temos todos as capacidades para o sucesso.

 

 

Assumiu recentemente a presidência da direção da ANJE. O que vai mudar?

 

[ACM] Acima de tudo, queremos dar continuidade a um trabalho que julgamos que foi relativamente bem feito. Claro que queremos colocar as nossas ideias e cunho pessoal na estratégia que temos para a ANJE. É importantíssimo para nós posicionar a ANJE como um dos principais players nesta interligação entre as Start-ups e o investimento.

 

E queremos manter a nossa missão, que é ajudar os jovens empresários, não só na vertente tecnológica mas em todas as vertentes. Porque um jovem empresário pode sê-lo na indústria mas também com um cabeleireiro ou uma start-up tecnológica.

 

Genericamente queremos continuar a potenciar o empreendedorismo e ajudá-los [jovens empresários] a melhorarem as sua competências e a sua competitividade [através até da Indústria 4.0 que fomentamos]. E continuar a marcar e posicionar ainda mais a nossa presença.