"A cortiça é talvez o único negócio onde Portugal controla integralmente toda a cadeia de valor"

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"A cortiça é talvez o único negócio onde Portugal controla integralmente toda a cadeia de valor"

"A cortiça é talvez o único negócio onde Portugal controla integralmente toda a cadeia de valor"

A cortiça vale €937,5 milhões de euros em exportações na balança comercial portuguesa. Um aumento de 4%, em 2016, no setor e um contributo de 7,5% para o aumento das exportações nacionais. Segundo João Rui Ferreira, presidente da Associação Portuguesa da Cortiça, uma consequência do “esforço na renovação de processos e produtos, do investimento em inovação e da política de comunicação internacional consciente e sustentável ao longo dos últimos 15 anos”. Em 2017 o objetivo é atingir a meta dos mil milhões de euros.

A cortiça sempre foi associada às rolhas ou a bases de todo o tipo. A revestimentos. À insonorização de estúdios – os músicos sabem bem da sua importância – ou até mesmo à paisagem típica do Alentejo. E foi assim durante décadas. Mas a cortiça é muito mais do que isso e, depois da crise de finais da década de noventa do século passado, passou a estar presente em muitos outros setores de atividade da indústria. Abriu os horizontes. Apostou na Inovação e reiventou-se. Atualmente podemos ver a cortiça em setores como o calçado, vestuário, automóvel, ferroviário, aeronáutico ou aeroespacial. E, segundo os indicadores oficiais, esta tendência é para continuar: “através de uma busca incessante de novas aplicações”, defende João Rui Ferreira.

 

Algo que já se começa a verificar nos valores das exportações. A indústria exporta para um total de 133 países, com a rolha a ter um peso de 72%, com os materiais de construção a chegarem aos 25% e outros produtos a atingirem os 3%, mas com as novas aplicações a registarem um grande potencial de crescimento. Aliás, João Rui Ferreira refere que a cortiça quer continuar a afirmar-se “não só no mundo do vinho […], como também através de uma busca incessante de novas aplicações”.

 

Num setor que envolve cerca de 600 empresas e mais de oito mil trabalhadores, os principais mercados são o europeu e norte americano. E crescer continua a ser o grande desafio, com o presidente da APCOR a afirmar que para 2017 “o objetivo é chegar aos mil milhões de euros”.

 

Um cenário otimista para Américo Azevedo, diretor da Pós-graduação em Gestão de Operações e do programa Construir a Excelêcia nas Operações da Porto Business School e que acompanha o setor há mais de trinta anos, para quem esse “ainda não será o ano em que se atingirão esses valores. Tudo aponta para que o ano de viragem seja o de 2020. Mas penso que estão no bom caminho, nitidamente”.

 

Américo Azevedo considera o setor da cortiça “extremamente interessante em várias perspetivas, quer na das operações, quer do mercado e até da gestão financeira do próprio negócio. Apesar de ser um setor tradicional conseguiu delinear uma estratégia que começa a dar, de forma consistente, os seus resultados. Olhou-se para toda a cadeia de valor, desde a matéria prima até ao mercado onde o produto é consumido. Diria mesmo que é o único negócio onde Portugal controla integralmente toda a cadeia de valor. É um negócio verticalizado numa perspetiva global e, ao mesmo tempo, é desafiante porque nós [como país] lideramos a produção de matéria prima, mas também lideramos a produção da sua transformação e da sua distribuição”.

 

Um produto ecológico

 

Uma das grandes vantagens associadas à cortiça passa pelo facto de ser um produto amigo do ambiente dadas as suas caraterísticas. “Quando se olha para a cadeia de valor da cortiça enquanto produto fica-se impressionado. A rolha de cortiça é apenas uma pequena parte da matéria prima. Ou seja, apenas 30%. A cortiça é um caso espetacular em que 100% do material é utilizado em produtos de valor acrescentado. Não há desperdício. Até o próprio pó que resulta do processamento da cortiça pode ser aglutinado e dar origem a produtos que também são naturais”, explica Américo Azevedo, acrescentando que “este setor tem todos os ingredientes que o colocam no topo daquilo que são as exigências da sociedade: um produto natural, amigo do ambiente e que assegura a sustentabilidades das florestas, entre outras coisas”.

 

Outro aspeto que Américo Azevedo realça é o do dinamismo que existe no setor e que "faz mover à sua volta muita coisa, como as indústrias criativas e empresas que exploram a cortiça para uma série de aplicações onde antes não era utilizada, ou então áreas de elevada exigência, como os setores automóvel e dos transportes”.

 

E para que o crescimento continue a ser sustentável é necessário que existam estratégias concertadas. A propósito disto o docente da Porto Business School dá o exemplo da estratégia de controlo do mercado corticeiro. “O que Portugal também fez foi procurar controlar a produção de cortiça noutros mercados. Portugal importa cortiça e acrescenta valor – transforma a cortiça, acaba a cortiça, personaliza o produto e entrega-o no mercado. O que é notável. Isto resulta de uma estratégia portuguesa de querer controlar o mais possível toda a cadeia de valor”, exemplifica.

 

Américo Azevedo também chama a atenção para a importância “do setor desenvolver as qualificações e as competências necessárias para que os que estão à frente destes negócios estejam preparados para lidarem com as exigências dos próximos anos”. A terminar congratula-se pelo “excelente trabalho que o setor está a fazer. Passou por uma fase complexa de reestruturação e agora com certeza que continuará no bom caminho”, remata.